Josemaría Escrivá Obras
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A vocação cristã, que é um chamado pessoal do Senhor, leva cada um de nós a identificar-se com Ele. Mas não devemos esquecer que Ele veio à terra para redimir o mundo inteiro, porque quer que os homens se salvem. Não há alma que não interesse a Cristo. Cada uma delas custou-lhe o preço do seu sangue.

Ao considerar estas verdades, vem-me à memória a conversa dos Apóstolos com o Mestre, momentos antes do milagre da multiplicação dos pães. Uma grande multidão acompanhara Jesus. Nosso Senhor ergue os olhos e pergunta a Filipe: Onde compraremos pão para dar de comer a toda esta gente? Fazendo um cálculo rápido, Filipe responde: Duzentos denários não bastam para que cada um receba um pequeno pedaço. Como não dispõem de tanto dinheiro, lançam mão de uma solução caseira: Diz-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: Está aqui um rapaz que trouxe cinco pães de cevada e dois peixes; mas que é isso para tanta gente?


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Nós queremos seguir o Senhor e desejamos difundir a sua palavra. Pensando em termos humanos, é lógico que também nos perguntemos: Mas que somos nós para tanta gente? Em comparação com o número de habitantes da terra, ainda que sejamos milhões, somos poucos. Por isso, temos de considerar-nos uma pequena levedura, preparada e pronta para fazer o bem à humanidade inteira, recordando as palavras do Apóstolo: Um pouco de levedura fermenta toda a massa, transforma-a. Precisamos, portanto, de aprender a ser esse fermento, essa levedura, para modificar e transformar as multidões. Será que o fermento é naturalmente melhor que a massa? Não. Mas é o meio necessário para que a massa se elabore, convertendo-se em alimento comestível e são.

Ainda que a traços largos, pensai na eficácia do fermento, que serve para fazer o pão, alimento básico, simples, ao alcance de todos. Em muitos lugares, a preparação da fornada é uma verdadeira cerimônia, da qual resulta um produto esplêndido, saboroso, que se come com os olhos. Talvez já o tenhais presenciado.

Escolhem farinha boa; se possível, da melhor. Trabalham a massa na masseira, para misturá-la bem com o fermento, em longo e paciente labor. Depois, um tempo de repouso, imprescindível para que a levedura complete a sua missão, inchando a massa. Nesse meio tempo, arde o lume no forno, animado pela lenha que se consome. E daquela massa, metida no calor do fogo, sai o pão fresco, esponjoso, de grande qualidade. Resultado impossível de alcançar, se não fosse pela levedura - em pequena quantidade - que se diluiu, que desapareceu no meio dos outros elementos, num trabalho eficiente, mas que não se vê.


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Se meditarmos com sentido espiritual no texto de São Paulo que citei no começo, compreenderemos que não temos outro jeito senão trabalhar a serviço de todas as almas. O contrário seria egoísmo. Um olhar humilde sobre a nossa vida nos faz perceber claramente que o Senhor, além da graça da fé, nos concedeu talentos e qualidades. Nenhum de nós é um exemplar repetido: o nosso Pai criou-nos um a um, distribuindo entre os seus filhos um número diverso de bens. Temos que pôr esses talentos, essas qualidades, a serviço de todos; temos que utilizar esses dons de Deus como instrumentos para ajudar os homens a descobrir Cristo.

Não consideremos este anseio como algo acrescentado, como se se tratasse de orlar com filigrana a nossa condição de cristãos. Se a levedura não fermenta, apodrece. Pode desaparecer reavivando a massa; mas pode também desaparecer por se perder, num monumento à ineficácia e ao egoísmo. Não prestamos um favor a Deus Nosso Senhor quando o damos a conhecer aos outros: Se anuncio o Evangelho, não tenho de que me gloriar, pois é uma necessidade que me é imposta, a mandado de Jesus Cristo, e ai de mim se não evangelizar!


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Eis que mandarei muitos pescadores, promete o Senhor, e pescarei esses peixes. Assim nos indica Deus o nosso grande trabalho: pescar.

Fala-se ou escreve-se, às vezes, comparando o mundo ao mar. E há muita verdade nessa comparação. Na vida humana, tal como no mar, há períodos de calma e períodos de borrasca, de tranqüilidade e de ventos fortes. Muitas vezes, os homens nadam em águas amargas, no meio de grandes vagas; avançam entre tormentas, numa triste caminhada, mesmo quando parecem ter alegria, mesmo quando fazem muito barulho: são gargalhadas com que pretendem encobrir o seu desalento, o seu desgosto, a sua vida sem caridade e sem compreensão. E devoram-se uns aos outros, tanto os homens como os peixes.

É tarefa dos filhos de Deus conseguir que todos os homens entrem - com liberdade - dentro da rede divina, para que se amem. Se somos cristãos, temos de converter-nos nesses pescadores de que fala o profeta Jeremias, servindo-se de uma metáfora que o próprio Cristo utilizou repetidamente: Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens, diz Ele a Pedro e a André.


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Vamos acompanhar Cristo nesta pesca divina. Jesus está junto do lago de Genesaré e as multidões comprimem-se à sua volta, ansiosas por ouvir a palavra de Deus. Tal como hoje! Não estais vendo? Andam desejosas de ouvir a palavra de Deus, embora o dissimulem exteriormente. Talvez este ou aquele se tenha esquecido da doutrina de Cristo; outros - sem culpa própria - nunca a aprenderam, e vêem a religião como algo estranho. Mas convencei-vos de uma realidade sempre atual: chega sempre um momento em que a alma não pode mais, em que não lhe bastam as explicações habituais, em que não a satisfazem as mentiras dos falsos profetas. E, mesmo que nem então o admitam, essas pessoas sentem fome de saciar a sua inquietação com os ensinamentos do Senhor.

Deixemos São Lucas continuar a sua narrativa: E viu duas barcas à beira do lago; e os pescadores tinham saído e lavavam as redes. Entrando numa das barcas, que era a de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da margem. E, sentando-se, ensinava o povo da barca. Quando acabou a sua catequese, ordenou a Simão: Faze-te mais ao largo e lançai as vossas redes para pescar. É Cristo o dono da barca. É Ele quem prepara a faina. Foi para isso - para cuidar de que os seus irmãos descobrissem o caminho da glória e do amor ao Pai - que Ele veio ao mundo. Não fomos nós, portanto, que inventamos o apostolado cristão. Nós, os homens, quando muito, o dificultamos, com os nossos modos desastrados, com a nossa falta de fé.


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Replicou-lhe Simão: Mestre, estivemos trabalhando durante toda a noite e não apanhamos nada. A resposta de Simão parece razoável. Costumavam pescar a essas horas e, precisamente naquela ocasião, a noite tinha sido infrutífera. Para que haviam de pescar de dia? Mas Pedro tem fé: Porém, sobre a tua palavra, lançarei a rede. Resolve proceder como Cristo lhe sugeriu; compromete-se a trabalhar, fiado na Palavra do Senhor. E que acontece? Tendo feito isso, apanharam tão grande quantidade de peixes, que a rede se rompia. Então fizeram sinal aos companheiros que estavam na outra barca para que os viessem ajudar. Vieram e encheram tanto as duas barcas, que pouco faltou para que se afundassem.

Ao sair para o mar com os seus discípulos, Jesus não pensava só nessa pesca, porque, quando Pedro se lança aos seus pés e confessa com humildade: Afasta-te de mim, Senhor, que sou um pecador, Nosso Senhor responde-lhe: Não temas; de hoje em diante, serás pescador de homens. E também nesta nova pesca não há de falhar a plena eficácia divina, pois todo o apóstolo é instrumento de grandes prodígios, apesar das suas misérias pessoais.


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Atrevo-me a assegurar que o Senhor também fará de nós instrumentos capazes de realizar milagres, e até, se for preciso, dos mais extraordinários, se lutarmos diariamente por alcançar a santidade, cada um no seu próprio estado, dentro do mundo e no exercício da sua profissão, na vida normal e corrente.

Daremos luz aos cegos. Quem não poderia contar mil casos de cegos, quase de nascença, que recobraram a vista, recebendo todo o esplendor da luz de Cristo? E de outros que eram surdos, e mudos, que não podiam ouvir ou articular uma palavra como filhos de Deus?... E purificaram-se os seus sentidos, e já ouvem e se exprimem como homens; não como animais!

In nomine Iesu!, em nome de Jesus, os seus Apóstolos dão a faculdade de andar àquele aleijado que era incapaz de uma ação útil... E àquele outro, um poltrão, que conhecia as suas obrigações, mas não as cumpria... Em nome do Senhor surge et ambula!, levanta-te e anda. E um outro, já morto, apodrecido, que cheirava a cadáver, também ouviu a voz de Deus, como no milagre do filho da viúva de Naim: Rapaz, eu te ordeno: levanta-te! Faremos milagres como Cristo, milagres como os primeiros Apóstolos.

Talvez esses prodígios se tenham operado em ti mesmo, em mim. Talvez fôssemos cegos, ou surdos, ou paralíticos, ou tresandássemos a cadáver, e a palavra do Senhor nos levantou da nossa prostração. Se amamos a Cristo, se o seguimos sinceramente, se não nos procuramos a nós mesmos, mas unicamente a Ele, em seu nome poderemos transmitir aos outros, de graça, o que de graça nos foi concedido.


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Tenho pregado constantemente sobre esta capacidade sobrenatural e humana que Deus, nosso Pai, põe nas mãos de seus filhos: a de participar da Redenção operada por Cristo. E enche-me de alegria encontrar esta mesma doutrina nos textos dos Padres da Igreja. São Gregório Magno explica: Os cristãos expulsam as serpentes quando arrancam o mal do coração dos outros com a sua exortação ao bem . Impõem as mãos sobre os enfermos, para curá-los, quando vêem que o próximo se enfraquece na prática do bem e lhe oferecem ajuda de mil maneiras, robustecendo-o com a força do exemplo. Estes milagres são tanto maiores quanto é certo que se passam no campo espiritual, dando vida, não aos corpos, mas às almas. Também vós, se não vos desleixardes, podereis operar estes prodígios com a ajuda de Deus.

Deus quer que todos se salvem, e isso é um convite e uma responsabilidade que pesam sobre cada um de nós. A Igreja não é um reduto para privilegiados. A grande Igreja será porventura uma exígua parte da terra? A grande Igreja é o mundo inteiro. Assim escrevia Santo Agostinho, acrescentando: Para onde quer que te dirijas, aí está Cristo. Tens por herança os confins da terra. Vem! Toma comigo posse dela toda. Certamente nos lembramos de como estavam as redes: carregadas a ponto de transbordar. Não cabiam mais peixes. Deus espera ardentemente que se encha a sua casa. É Pai, e gosta de viver com todos os filhos ao seu redor.


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Vejamos agora aquela outra pesca que se deu depois da Paixão e Morte de Cristo.

Pedro negou três vezes o Mestre e chorou com dor humilde. O galo, com o seu canto, recordou-lhe as advertências do Senhor, e ele pediu perdão do fundo da alma. Enquanto espera, contrito, na promessa da Ressurreição, exerce o seu ofício e vai pescar. A propósito desta pesca, perguntam-nos com freqüência por que é que Pedro e os filhos de Zebedeu voltaram à ocupação que tinham antes de o Senhor os ter chamado. Efetivamente, eram pescadores quando o Senhor lhes disse: “Segui-me e eu vos farei pescadores de homens”. Aos que se surpreendem com esta conduta, deve-se responder que não estava proibido aos Apóstolos exercerem a sua profissão, visto tratar-se de coisa legítima e honesta.

O apostolado, essa ânsia que rói as entranhas do cristão, não é coisa diferente do trabalho de todos os dias; confunde-se com esse mesmo trabalho, convertido em ocasião de um encontro pessoal com Cristo. No meio dessas tarefas, empenhados ombro a ombro nas mesmas aspirações com os nossos colegas, com os nossos amigos, com os nossos parentes, poderemos ajudá-los a chegar a Cristo, que nos espera na margem do lago. Antes de ser apóstolo, pescador. Depois de apóstolo, pescador. Antes e depois, a mesma profissão.


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O que é que muda então? O que muda é que na alma - porque nela entrou Cristo, tal como entrou na barca de Pedro - se abrem horizontes mais amplos, maior ambição de servir, e um desejo irreprimível de anunciar a todas as criaturas as magnalia Dei, as coisas maravilhosas que o Senhor faz, se o deixamos agir.

A este propósito, não posso silenciar que o trabalho, digamos, profissional dos sacerdotes é um ministério divino e público, que lhes absorve de modo exigente toda a atividade: a tal ponto que, de maneira geral, se um sacerdote se encontra com tempo de sobra para outros trabalhos que não sejam propriamente sacerdotais, pode ter a certeza de que não cumpre os deveres do seu ministério.

Estavam juntos Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo, e Natanael, que era de Caná da Galiléia, e os filhos de Zebedeu, e outros dois dos seus discípulos. Disse-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Responderam-lhe: Também nós vamos contigo. Partiram e entraram numa barca; e naquela noite nada apanharam. Chegada a manhã, Jesus apresentou-se na praia.

Passa ao lado dos seus Apóstolos, junto dessas almas que se lhe entregaram. E eles não se dão conta disso. Quantas vezes está Cristo, não perto de nós, mas dentro de nós, e temos uma vida tão humana! Cristo está ao nosso lado, e não recebe um olhar de carinho, uma palavra de amor, uma obra de zelo por parte de seus filhos.


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Os discípulos, todavia - escreve São João -, não perceberam que era Jesus. Disse-lhes, pois, Jesus: Ó moços, tendes alguma coisa que comer? Esta cena tão familiar de Cristo dá-me muita alegria. Que diga isso Jesus Cristo, o próprio Deus! Ele, que já tem corpo glorioso! Lançai a rede para o lado direito da barca, e encontrareis. Lançaram a rede e já não a podiam tirar por causa da grande quantidade de peixes. Agora compreendem. Volta à memória desses discípulos o que tantas vezes tinham ouvido dos lábios do Mestre: pescadores de homens, apóstolos. E compreendem que tudo é possível, porque é Ele quem dirige a pesca.

Então o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor! O amor, o amor vê de longe. O amor é o primeiro a captar essas delicadezas. O Apóstolo adolescente, com o firme carinho que sentia por Jesus, pois amava a Cristo com toda a pureza e toda a ternura de um coração que nunca se corrompera, exclamou: É o Senhor!

Simão Pedro, mal ouviu dizer que era o Senhor, vestiu a túnica e lançou-se ao mar. Pedro é a fé. E lança-se ao mar, cheio de uma audácia maravilhosa. Com o amor de João e a fé de Pedro, até onde não poderemos nós chegar!


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Os outros discípulos foram com a barca porque não estavam distantes de terra senão duzentos côvados, e tiraram a rede cheia de peixes. Põem imediatamente a pesca aos pés do Senhor, porque a pesca é dEle. Para que aprendamos que as almas são de Deus, que ninguém nesta terra pode avocar a si essa propriedade; que o apostolado da Igreja - a notícia e a realidade da salvação - não se baseia no prestígio desta ou daquela pessoa, mas na graça divina.

Jesus Cristo interroga Pedro três vezes, como se lhe quisesse dar a repetida oportunidade de reparar a sua tripla negação. Pedro já aprendeu, escarmentado à custa da sua própria miséria: consciente da sua debilidade, está profundamente convencido de que sobejam os seus alardes temerários. Por isso coloca tudo nas mãos de Cristo: Senhor, tu sabes que eu te amo... Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo. E que responde Cristo? Apascenta os meus cordeiros; apascenta as minhas ovelhas. Não as tuas, não as vossas; as minhas! Porque foi Ele que criou o homem, Ele que o redimiu, Ele que comprou cada alma, uma a uma, ao preço - repito - do seu Sangue.

Quando os donatistas, no século V, lançavam os seus ataques contra os católicos, sustentavam a impossibilidade de que o bispo de Hipona, Agostinho, professasse a verdade, porque tinha sido um grande pecador. E Santo Agostinho sugeria aos seus irmãos na fé como haviam de replicar: Agostinho é bispo na Igreja Católica. Ele leva a sua carga, de que há de prestar contas a Deus. Conheci-o entre os bons. Se é mau, ele o sabe; se é bom, nem por isso deposito nele a minha esperança. Porque a primeira coisa que aprendi na Igreja Católica foi a não pôr a minha esperança num homem.

Não fazemos o nosso apostolado. Então, como havemos de dizer? Fazemos - porque Deus o quer, porque assim no-lo mandou: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho - o apostolado de Cristo. Os erros são nossos; os frutos, do Senhor.


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E como realizaremos esse apostolado? Antes de mais nada, com o exemplo, vivendo de acordo com a Vontade do Pai, tal como Jesus Cristo no-lo revelou com a sua vida e os seus ensinamentos. Fé verdadeira é aquela que não permite que as ações contradigam o que se afirma com as palavras. Devemos medir a autenticidade da nossa fé examinando a nossa conduta pessoal. Se não nos esforçamos por realizar com as nossas ações o que confessamos com os lábios, não cremos com sinceridade.


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Vem agora a propósito recordar um episódio que põe em evidência o maravilhoso vigor apostólico dos primeiros cristãos. Não tinha passado um quarto de século desde que Jesus subira aos céus, e já em muitas cidades e povoados se propagava a sua fama. Chega a Éfeso um homem chamado Apolo, varão eloqüente e versado nas Escrituras. Estava instruído no caminho do Senhor, pregava com fervor de espírito e ensinava com exatidão tudo o que dizia respeito a Jesus, embora só conhecesse o batismo de João.

Na mente daquele homem já se tinha insinuado a luz de Cristo. Ouvira falar dEle e anuncia-o aos outros. Mas ainda lhe faltava um pouco de caminho para se informar melhor, para alcançar totalmente a fé e amar deveras o Senhor. Áquila e Priscila, um casal de cristãos, ouvem as suas palavras e não permanecem inativos e indiferentes. Não lhes ocorre pensar: Este já sabe bastante; ninguém nos manda dar-lhe lições. Como eram almas com autêntica preocupação apostólica, aproximaram-se de Apolo, levaram-no consigo e instruíram-no mais acuradamente na doutrina do Senhor.


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Admiremos também o comportamento de São Paulo: preso por divulgar os ensinamentos de Cristo, não desaproveita ocasião alguma para difundir o Evangelho. Diante de Festo e Agripa, não duvida em declarar: Graças ao auxílio de Deus, perseverei até o dia de hoje em dar testemunho da verdade a pequenos e grandes, nada pregando senão o que Moisés e os profetas disseram que havia de suceder: que o Messias teria de padecer, e que seria o primeiro a ressuscitar dos mortos, e anunciaria a luz a este povo e aos gentios.

O Apóstolo não se cala, não oculta a sua fé nem a propaganda apostólica que provocara o ódio dos seus perseguidores; continua a anunciar a salvação a toda a gente. E, com uma audácia maravilhosa, interpela Agripa: Crês, ó rei Agripa, nos profetas? Eu sei que crês. Quando Agripa comenta: Por pouco não me persuades a fazer-me cristão, Paulo respondeu-lhe: Prouvera a Deus que, por pouco ou por muito, não somente tu, mas também todos quantos me ouvem se fizessem hoje tais como eu sou, menos estas cadeias.


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Donde tirava São Paulo essa força? Omnia possum in eo qui me confortat, tudo posso nAquele que me conforta! Tudo posso, porque só Deus me dá esta fé, esta esperança, esta caridade. Custa-me muito crer na eficácia sobrenatural de um apostolado que não esteja apoiado, solidamente alicerçado, numa vida contínua de intimidade com o Senhor. No meio do trabalho, sim; dentro de casa ou no meio da rua, com todos os problemas, uns mais importantes que outros, que surgem todos os dias. Ali, não fora dali, mas com o coração em Deus. E então as nossas palavras e as nossas ações - e até as nossas misérias! - exalarão o bonus odor Christi, o bom odor de Cristo, que os outros forçosamente hão de perceber: aqui está um cristão.


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Se admitisses a tentação de perguntar a ti mesmo: Quem me manda a mim meter-me nisto?, teria que responder-te: Quem te manda - quem te pede - é o próprio Cristo. A messe é grande, e os operários, poucos. Rogai, pois, ao dono da messe que mande operários para a sua messe. Não concluas comodamente: Eu não sirvo para isso, para isso já há outros; essas tarefas me são estranhas. Não, para isso não há outros; se tu pudesses falar assim, todos poderiam dizer o mesmo. O pedido de Cristo dirige-se a todos e a cada um dos cristãos. Ninguém está dispensado, nem por razões de idade, nem de saúde, nem de ocupação. Não há desculpas de nenhum gênero. Ou produzimos frutos de apostolado ou a nossa fé será estéril.


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E depois, quem foi que disse que, para falar de Cristo, para difundir a sua doutrina, é preciso fazer coisas esquisitas, estranhas? Faze a tua vida normal; trabalha onde estás, procurando cumprir os deveres do teu estado, acabar bem as tarefas da tua profissão ou do teu ofício, superando-te, melhorando dia a dia. Sê leal, compreensivo com os outros e exigente contigo mesmo. Sê mortificado e alegre. Esse será o teu apostolado. E sem saberes por quê, dada a tua pobre miséria, os que te rodeiam virão ter contigo e, numa conversa natural, simples - à saída do trabalho, numa reunião familiar, no ônibus, ao dar um passeio, em qualquer parte -, falareis de inquietações que existem na alma de todos, embora às vezes alguns não as queiram reconhecer: irão entendendo-as melhor quando começarem a procurar Deus a sério.

Pede a Maria, Regina apostolorum, Rainha dos Apóstolos, que te decidas a participar nas ânsias de sementeira e de pesca que palpitam no Coração do seu Filho. Eu te asseguro que, se começares, verás a barca repleta, como os pescadores da Galiléia. E Cristo na margem, à tua espera. Porque a pesca é dEle.


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