Josemaría Escrivá Obras
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Continuemos, se não se importa, com a juventude. Através da secção "Gente moça" de nossa revista, chegam-nos muitos de seus problemas. Um, muito freqüente, é a imposição que às vezes os pais fazem no momento de determinar a orientação dos filhos. Isto sucede tanto na orientação relativa ao curso ou profissão como na escolha de noivo, mais ainda, se se pretende seguir o chamado de Deus para uma vida dedicada ao serviço das almas. Haverá alguma justificação para essa atitude dos pais? Não será uma violação da liberdade, imprescindível para chegar à maturidade pessoal?



Em última instância, é claro que as decisões determinantes do rumo de uma vida, deve tomá-las cada um pessoalmente, com liberdade, sem coação nem pressão de espécie alguma.

Isto não significa que ordinariamente não seja necessária a intervenção de outras pessoas. Precisamente porque são passos decisivos que afetam a vida inteira e porque a felicidade depende em grande parte de como se dêem, é lógico que requeiram serenidade, que se evite a precipitação, que exijam responsabilidade e prudência. E uma parte da prudência consiste precisamente em pedir conselhos. Seria presunção — que se costuma pagar caro — pensar que podemos decidir sem a graça de Deus e sem o calor e a luz de outras pessoas, especialmente de nossos pais.

Os pais podem e devem prestar aos filhos uma ajuda preciosa, descobrindo-lhes novos horizontes, comunicando-lhes a sua experiência, fazendo-os refletir, para que não se deixem arrastar por estados emocionais passageiros, oferecendo-lhes uma apreciação realista das coisas. Umas vezes, prestarão essa ajuda com seu conselho pessoal; outras, animando os filhos a recorrer a outras pessoas competentes: a um amigo sincero e leal, a um sacerdote douto e piedoso, a um perito em orientação profissional.

Mas o conselho não tira a liberdade: dá elementos de opinião; e isso amplia as possibilidades de escolha e faz com que a decisão não seja determinada por fatores irracionais. Depois de se haver escutado os pareceres de outros e de se haver ponderado tudo bem, chega um momento em que é preciso escolher; nessa altura ninguém tem o direito de violar a liberdade. Os pais devem precaver-se contra a tentação de se quererem projetar indevidamente nos filhos — de construí-los segundo as suas próprias preferências — ; devem respeitar as inclinações e as aptidões que Deus dá a cada um. Se há verdadeiro amor, isto, em geral, torna-se simples. Inclusive no caso extremo, quando o filho toma uma decisão que os pais têm fortes motivos para julgar errada e até para prever nela a origem de uma infelicidade, a solução não está na violência, mas em compreender; e — mais uma vez — em saber permanecer ao lado dele, a fim de ajudá-lo a superar as dificuldades e, se necessário, ajudá-lo a extrair desse mal todo o bem possível.

Os pais que amam deveras e procuram sinceramente o bem de seus filhos, depois dos conselhos e das considerações oportunas, devem-se retirar com delicadeza para que nada prejudique o grande bem da liberdade, que torna o homem capaz de amar e servir a Deus. Devem lembrar-se de que o próprio Deus quer ser amado e servido com liberdade, e respeita nossas decisões pessoais; "Deus deixou o homem — diz a Escritura — nas mãos do seu livre arbítrio" (Eclo 15, 14),

Umas palavras mais para me referir expressamente ao último dos casos concretos expostos: — a decisão de dedicar-se ao serviço da Igreja e das almas. Quando pais católicos não compreendem essa vocação, penso que malograram na sua missão de formar uma família cristã; que nem sequer são conscientes da dignidade que o cristianismo dá à sua própria vocação matrimonial. Além do mais, a experiência que tenho no Opus Dei é muito positiva. Costumo dizer aos sócios da Obra que eles devem noventa por cento de sua vocação a seus pais, porque os souberam educar e os ensinaram a ser generosos. Posso garantir que na imensa maioria dos casos — praticamente na totalidade, os pais não só respeitam mas também amam essa decisão dos filhos, passando a ver a Obra como uma ampliação da sua própria família. É uma das minhas grandes alegrias e uma confirmação mais de que, para sermos muito divinos, temos de ser também muito humanos.

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